Abaixo da expectativa, IPCA-15 é o maior em quase 3 anos

A prévia da inflação de fevereiro mostra variação de preços menor que a esperada, mas na maior taxa mensal desde abril de 2022. O indicador reflete em boa parte a recomposição das contas de luz, além da sazonalidade do reajuste de mensalidades escolares, e traz algumas boas notícias. Mas a análise qualitativa, considerando os núcleos da inflação, revela alta de preços “preocupante” e “desafiadora” para a política monetária, o que mantém, segundo economistas ouvidos pelo Valor, as perspectivas de inflação para 2025.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) – considerado a prévia da inflação oficial no país – subiu 1,23% em fevereiro, após alta de 0,11% em janeiro, segundo o IBGE. É a maior taxa mensal do IPCA-15 desde abril de 2022 (1,73%). Para meses de fevereiro, o aumento foi o maior desde 2016 (1,42%). Com o dado de fevereiro, o IPCA-15 acumula alta de 4,96% em 12 meses.
A alta de 1,23% em fevereiro ficou abaixo do 1,36% da mediana de 28 projeções de consultorias e instituições financeiras consultados pelo Valor Data.
Quase 70% (67,47%) da alta do IPCA-15 de fevereiro veio dos preços de energia elétrica e do grupo educação. Os preços de energia subiram 16,33% em fevereiro, com impacto individual de 0,54 ponto percentual (p.p.) no indicador. A alta vem após queda de 15,46% em janeiro. No índice do mês passado, foi incorporado o bônus de Itaipu, espécie de crédito a partir da conta de comercialização de energia da usina hidrelétrica. Em fevereiro o preço subiu sobre uma base baixa.
No grupo educação, a alta em fevereiro foi de 4,78%, com impacto de 0,29 p.p. no IPCA-15. Fevereiro é, tradicionalmente, mês de alta nos preços dessa despesa, em razão dos reajustes que ocorrem no início do ano letivo.
André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), diz que há uma notícia “menos ruim na alimentação, que veio com preços não tão salgados quanto se imaginava”. Segundo ele, a alimentação pode continuar a dar boas notícias, em razão do câmbio menos depreciado e a expectativa de boa safra em 2025.
A alta em alimentação e bebidas desacelerou de 1,06% em janeiro para 0,61% em fevereiro, segundo o IBGE. Foi a primeira vez desde outubro (0,87%) que a taxa ficou abaixo de 1%.
Em fevereiro, o grupo respondeu por 0,14 ponto percentual no IPCA-15 Em janeiro, esse impacto foi de 0,23 p.p. para um IPCA-15 de 0,11%. A desaceleração também ocorreu nos subgrupos de alimentação no domicílio (de 1,10% em janeiro para 0,63% em fevereiro) e fora do domicílio (de 0,93% para 0,56%, na mesma ordem).
Dentro da alimentação, destaca Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, as carnes tiveram variação quase zero (0,08%) enquanto o ovo de galinha subiu 2,56%. Mas o item que realmente fez a inflação vir abaixo do esperado em fevereiro, observa, foi a passagem aérea que, com a deflação de 20,42%, tirou 0,18 p.p. do IPCA-15 de fevereiro. E esse preço, explica, se repete no IPCA cheio.
Com a “surpresa” positiva do agregado do IPCA-15 de fevereiro, a estimativa de Leal para o IPCA cheio passa a ser de 1,25% em vez da projeção anterior, de 1,35%. A expectativa para o IPCA de 2025 se mantém em 5%.
O economista destaca que na média dos dois primeiros meses do ano, a inflação medida pelo IPCA-15 ficou em 0,67%, totalmente incompatível com a média mensal de 0,25% necessária para chegarmos à meta de 3%. A meta de inflação perseguida pelo BC é de 3% em 12 meses, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
“Se a inflação média mensal caísse pela metade da que foi entre janeiro e fevereiro, mesmo assim a inflação em 12 meses ficaria em 4,1%. Por isso, não devemos ver a surpresa deste IPCA-15 como algo que possa mudar a perspectiva para a política monetária”, avalia.
“São muitas pressões para cima na inflação e isso fica claro no índice de difusão”, diz a economista Marianna de Oliveira, economista da Mirae Asset. Esse índice, que mede a proporção de bens e serviços que tiveram aumento de preços num período, caiu de 68,9% em janeiro para 65,1% em fevereiro, segundo o Valor Data, considerando todos os itens da cesta. Sem alimentos, um dos grupos considerados mais voláteis, o indicador também recuou, de 68,3% para 66,3%. Apesar do recuo, diz Oliveira, o índice de difusão ainda está em nível historicamente alto.
A média dos cinco principais núcleos do IPCA-15 monitorados pelo Banco Central caiu de 0,66% em janeiro para 0,62% em fevereiro, segundo cálculos da MCM Consultores. No IPCA-15 acumulado em 12 meses, a média dos cinco núcleos avançou de 4,42% para 4,48%. Também denominado de inflação subjacente, a medida de núcleo procura captar a tendência dos preços, desconsiderando impactos de choques temporários.
Para Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, o IPCA-15 “continua ruim”, com as médias subjacentes, principalmente as de serviços e a média dos núcleos, operando em níveis bastante elevados, “demonstrando continuidade de uma situação inflacionária desafiadora”. O economista manteve projeção de IPCA de 1,45% em fevereiro e de 5,91% para o ano.
Alexandre Maluf, economista da XP, destaca que, considerando sempre a média móvel anualizada sazonalmente de três meses, os núcleos de inflação seguem preocupantes. A média dos núcleos subiu de 5,5% para 5,6%, e o núcleo sensível à atividade [ex-3 do Banco Central, que mescla indústria e serviços subjacentes] está em 6,5%, “em trajetória ascendente”, aponta. “Isso sinaliza pressões persistentes, mesmo com a surpresa baixista de fevereiro.” A XP revisou provisoriamente o IPCA de fevereiro para 1,34%, ante 1,38% na estimativa anterior. A estimativa de IPCA para 2025 se mantém em 6,1%.

